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Praga ou Chaga? |
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Sabemos que a família é uma grande preocupação
de nossa Igreja que tem feito muitos esforços
para apresentar-lhe os mais autênticos valores
cristãos. A Igreja também não
é insensível diante dos problemas e
dificuldades que nossas famílias enfrentam
e está atenta a todas as situações
familiares, tais como famílias desestruturadas,
famílias marcadas pela ausência de pais
ou mães, devido ao falecimento de um dos cônjuges
ou mesmo a uma separação. Igual atenção
a Igreja dispensa às famílias daqueles
que estão numa segunda união.
A atenção da Igreja em relação
à família não a isenta de apresentar
o “ideal de família”, apresentado
pelas Sagradas Escrituras e sustentado pela Tradição
da Igreja. Quando a Igreja reafirma a Unidade (o casamento
é entre um homem e uma mulher que se unem para
serem uma só carne) e a Indissolubilidade (“O
que Deus uniu o homem não separe” (Mt
19,6))
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do Matrimônio ela está
consciente de que este compromisso é
difícil (como toda a vida cristã)
e requer, além da boa vontade dos nubentes,
um Sacramento que confere uma graça especial
de Deus para viver este compromisso. Jamais
um casal poderá levar adiante o Sacramento
do Matrimônio na fidelidade e por toda
a vida contando apenas com as forças
humanas, mas torna-se necessário abrir-se
à graça de Deus. Já dizia
sabiamente o profeta: “Maldito o homem
que confia no homem e busca apoio na carne humana”
(Jr 17,5). Qualquer compromisso, vivido na dimensão
da fé, deve contar com uma graça
especial de Deus. Entretanto, Deus que sonda
os corações e conhece a vida e
a intenção de cada um de seus
filhos certamente saberá compreender
cada situação vivida por nós
pecadores.
Ao afirmar a indissolubilidade do Matrimônio
e os demais compromissos inerentes a este sacramento,
a Igreja não exclui seus filhos que por
diversos motivos se afastaram deste ideal. Há
recomendações específicas
para cada situação, como do cônjuge
que separou e não deseja contrair novas
núpcias e daqueles que estão numa
“segunda união”. Existe até
mesmo um trabalho específico para estes
casais e a recomendação da Igreja
para que os acolhamos e os orientemos como devem
participar da comunidade. Seria bom que o casal
conversasse pessoalmente com seu pároco
e pedisse a ele as devidas orientações.
Recentemente, criou muita polêmica no
Brasil a citação (isolada) de
uma frase do papa Bento XVI, retirada da Exortação
Apostólica Sacramentum Caritatis, quando
uma tradução afirmava que o papa
tinha dito que as “dolorosas situações
em que se encontram não poucos fiéis
que, depois de ter celebrado o sacramento do
Matrimônio, se divorciaram e contraíram
novas núpcias. Trata-se dum problema
pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira
praga do ambiente social contemporâneo
que vai progressivamente corroendo os próprios
ambientes católicos.
Muito se discutiu sobre o significado da palavra
traduzida por praga e muita coisa foi escrita,
dando-se a entender que o papa seria um “retrógrado”,
que não acompanha os tempos modernos
e que está insensível diante da
situação de inúmeras famílias.
Sabemos que isso não é verdade.
A palavra latina empregada foi plaga, cujo correspondente
italiano é piaga e, segundo, Dom João
Bosco Oliver de Faria, bispo de Patos de Minas
(em artigo publicado na internet) houve um erro
de tradução quando a palavra chegou
a nós como praga, enquanto a verdadeira
tradução seria “chaga”.
Portanto, a situação daqueles
que contraem segundas núpcias é
uma verdadeira “chaga”, uma ferida,
um problema pastoral difícil de ser resolvido
e que requer nossa atenção, cuidado
e carinho.
É verdade que nenhum texto pode ser considerado
fora de seu contexto e nenhuma frase de um discurso
ou escrito pode ser absolutizada, ignorando
os outros elementos. Certamente nosso papa sabe
muito bem o quanto é sofrida a situação
daqueles que por motivos sérios não
puderam salvar o próprio Matrimônio
e hoje estão numa segunda união.
Há muitos casais sérios em nossas
comunidades, que sofrem com esta “chaga”,
mas procuram viver a fidelidade ao Evangelho
e às orientações da Igreja,
fazendo tudo o que é possível
a eles.
Os ensinamentos da Igreja são propostos
a todos os que dela querem fazer parte livremente.
Ninguém é obrigado a fazer parte
da Igreja, a receber os sacramentos (e entre
eles o Matrimônio). Somos pessoas livres
e podemos fazer nossas opções.
A verdadeira praga consiste na maldade das afirmações,
quando parte de um discurso é absolutizado
para gerar polêmica, quando a Igreja que
é o grande Sacramento de Jesus Cristo
do qual todos nós fazemos parte é
tratada como uma instituição retrógrada
porque defende a vida, é contra o aborto,
a eutanásia, etc. Devemos nos perguntar
o que significa ser moderno, atualizado. Os
ensinamentos da Igreja são propostos
a todos os que dela livremente querem fazer
parte, procurando construir o Reino de Deus.
Seus ensinamentos não são frutos
de opiniões pessoais deste ou daquele
líder religioso, mas resultado de uma
longa história de 2000 anos, de muita
reflexão, estudo e amadurecimento e,
sobretudo, da abertura ao Espírito Santo.
A Igreja, acima de tudo, é Mãe.
E, como Mãe, compreende seus filhos,
sobretudo aqueles que erram ou que não
conseguem viver plenamente seus ensinamentos.
Em conformidade com os ensinamentos de Jesus
Cristo, a Igreja nunca condena o pecador mas
sim o pecado. Como mãe compreensiva,
a Igreja não expulsa de casa os filhos
que erraram, mas procura compreendê-los,
amá-los e orientá-los. Como mãe,
ela sabe o que é ou não bom para
seus filhos e ela sempre os irá orientar,
mesmo que alguns deles discordem de suas orientações.
A nós, diletos filhos, cabe-nos acolher
as orientações de nossa Igreja,
seguir os caminhos indicados por ela, compreendê-la
e amá-la e, todas as vezes que a ofendermos,
nos revoltarmos contra ela, todas as vezes que
a chamarmos de retrógrada ou coisa parecida,
é a nós mesmo que estaremos ofendendo,
pois “a Igreja somos nós”.
Pe. Ademilson Luiz Ferreira
Pároco da Paróquia São
Judas Tadeu de Tupã
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